O pesquisador José Lourenço Alves, pesquisador do NEPPs, publica texto sobre a branquitude em comemoração ao Dia da Consciência Negra e andando ao lado das ideias do francano Abdias do Nascimento. O texto é reproduzido e abaixo e tem como título “Sobre a branquitude”.
SOBRE A BRANQUITUDE
Até elaborei um modelo de intervenção nesse sentido. Mais recentemente, em pós doutorado autônomo, tenho estudado a democracia no cotidiano e, em decorrência disso, a persistência do racismo no estado democrático de direito, mesmo com sua criminalização diferenciada e a implementação de políticas de promoção da igualdade racial. Considero esses estudos fundamentais à capacitação do promotor de justiça que ainda sou e não pretendo deixar de ser, mesmo estando aposentado. Afinal, o cargo é vitalício.

E no que se refere ao racismo, surpreendeu-me o quanto ainda é desconsiderado no debate um dos aspectos fundamentais de sua persistência.
White Fragility (1), o já famoso livro da estadunidense Robin Diangelo, PhD em Sociologia, atualizou o enfoque do racismo como sistema de controle e proteção de privilégios, e chamou a atenção para o campo de estudos da branquitude – tema que é tratado no programa Entrevista, disponível na página futuraplay.org, em 10 episódios de até 15 minutos cada.
Segue uma síntese desse programa, que aborda o que há de essencial, dando vez e voz a expoentes desse campo de estudo.
No primeiro episódio, a doutora em Psicologia Social Lia Vainer Shucman traz o aspecto conceitual. Vale transcrever um texto dela a respeito.
“A branquitude é entendida como uma posição em que os sujeitos que ocupam essa posição foram sistematicamente privilegiados no que diz respeito ao acesso aos recursos materiais e simbólicos, gerados inicialmente pelo colonialismo e pelo imperialismo, e que se mantém e são preservados na contemporaneidade.” (2)
A autora comenta o conceito de letramento racial crítico sobre o aprendizado social de raça (como a branquitude é aprendida), inclusive exemplificando com a experiência de seu filho, que no primeiro dia de aula foi apresentado aos funcionários da escola: os brancos não usavam uniformes, tinham as posições consideradas de maior destaque e eram apresentados pelo nome; os negros, usavam uniformes, trabalhavam na limpeza e na cozinha, e não foram apresentados pelo nome. Vale destacar outro texto em que ela detalha o conceito:
É um conjunto de práticas, baseado em cinco fundamentos. O primeiro é o reconhecimento da branquitude. Ou seja, o indivíduo reconhece que a condição de branco lhe confere privilégios. O segundo é o entendimento de que o racismo é um problema atual e não apenas um legado histórico. Esse legado histórico se legitima e se reproduz todos os dias e, se o indivíduo não for vigilante, ele acabará contribuindo para essa legitimação e reprodução. É o mesmo que acontece em relação ao machismo. Seja homem ou mulher, se a pessoa não for vigilante, ela acabará contribuindo para a legitimação e reprodução do machismo. O terceiro é o entendimento de que as identidades raciais são aprendidas. Elas são o resultado de práticas sociais. O quarto é tomar posse de uma gramática e de um vocabulário racial. No Brasil, evitamos chamar o negro de negro. Como se isso fosse um xingamento e como se evitar essa palavra pudesse esconder o racismo. Para combatê-lo, temos de ser capazes de falar de raça abertamente, sem subterfúgios. O quinto é a capacidade de interpretar os códigos e práticas “racializadas”. Isso significa perceber quando algo é uma expressão de racismo e não tentar camuflar, dizendo que foi um mal-entendido. É o caso daquele casal branco do Rio de Janeiro que foi comprar um carro levando junto o filho negro adotado. E o vendedor enxotou a criança, que considerou um “menino de rua”. Depois, o vendedor ou alguém da loja tentou se desculpar, dizendo que havia sido um mal-entendido. Não, não foi um mal-entendido. Foi uma expressão pura e simples de racismo. (Grifei. 3)
Há, portanto, uma vantagem social na branquitude e por isso mesmo, a superação do racismo implica em reconhecer isso, e efetivamente se comprometer com o desaprendizado do racismo, com a desconstrução do racismo.
No segundo episódio, a doutora em Psicologia Maria Aparecida da Silva Bento (Cida Bento) apresenta o que nomeou Pacto Narcísico da Branquitude – um pacto não escrito de confiança nos iguais que consecute em reforçar o imaginário construído e transmitido ao longo dos séculos de que o branco é o ser humano de referência. Da concessão de liberdade provisória à contratação para cargos de decisão, nota-se a influência e incidência desse pacto.
Há, sim, muitos casos de intencionalidade (“um negro não pode ocupar esse lugar”; “esse lugar é dos brancos”; “estamos perdendo nossos lugares”). Há, também, o efeito da reprodução inconsciente do imaginário construído e transmitido.
No terceiro episódio, o doutor em História Casé Angatu apresenta quem é o homem branco na concepção indígena, invertendo o viés da branquitude de nomear e classificar o outro. Na concepção Tupinambá, o homem branco é o “caraíba”, o estranho, e é identificado pelo modo de ser, pelo caráter. A rejeição à cultura do outro, o menosprezo ao outro e o preconceito são modos de ser que identificam o branco – e esse branco, assim nomeado por sua atitude arrogante, não precisa necessariamente ter a pele clara. Aliás, Casé Angatu chama atenção ao fenômeno do branco recalcado, que se acha branco e não é considerado branco na cultura que admira e tenta reproduzir (europeia). Esse branco tem o desejo de ser o que de fato não é.
No quarto episódio, o doutor em Sociologia Antônio Sérgio Guimarães aborda como o conceito de raça foi criado.
Da tradição sanguínea na Antiguidade à noção de pureza de “sangue” na Inquisição, a origem familiar ou religiosa era suficiente para marcar alguém ou algum grupo como inferior. A conquista da África e das Américas pelos europeus acrescentou marcadores físicos e culturais à ideia de raça.
A pergunta é: como se libertar desses marcadores que foram postos e impostos dentro de um processo histórico e cultural de colonização e imperialismo? Antônio Sérgio Guimarães recomenda a leitura de Frantz Fanon para ajudar a compreender o paradoxo da racialização, que leva à organização política e à resistência a partir dessa concepção. Essa compreensão é fundamental para a libertação racial, seja do negro, seja do branco. Aliás, ao branco só é possível entender a posição do negro quando entende a sua posição de branco, de dominação e privilégios.
A ideologia da raça continua sendo um marcador social; continua produzindo e reproduzindo injustiças. Nos anos 1960, um intelectual destacado como Vinicius de Moraes declarava-se “o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô” (trecho de Samba da Bênção, composição com Baden Powell). Hoje em dia é preciso ir bem mais além na tomada de posição antirracista.
No quinto episódio, a psicóloga doutoranda em Saúde Pública Mônica Mendes Gonçalves tratou o tema Branquitude e Saúde, destacando que o racismo impacta o modo como se vive (onde mora, o que come, o tipo de lazer etc), e é o modo como se vive que determina a qualidade de vida, a saúde. Há uma flagrante desigualdade entre negros e brancos no que se refere à saúde. Condições de vida precárias comprometem a saúde desde a infância e reproduzem as injustiças, entre elas o racismo.
Os profissionais da saúde são majoritariamente brancos de classe média. Socializados considerando racismo um problema de negros, e entendendo a própria condição social como mérito, acabam reproduzindo preconceito e discriminação; agem sem questionarem o racismo, que muitas vezes compromete, além da qualidade de vida, a própria vida das pessoas negras.
No sexto episódio, a psicóloga doutoranda em Ciências Humanas Geni Núñez tratou das relações entre povos brancos e indígenas. Na concepção guarani, os brancos são nomeados juruás (jurú = boca; juru-á = boca com pelo); uma nomeação que vai além da pessoa de pele clara. Juruá é o branco que ocupa o lugar de dominação e hegemonia.
O etnicídio, o apagamento da identidade étnica traz vantagem à ideologia dominante, à branquitude. É mais uma estratégia de dominação e que em muito se relaciona à questão da terra. Nesse sentido, questionar a necessidade do indígena à sua terra ou a adesão do indígena aos avanços tecnológicos, como a camiseta e o celular, tem o significado de negar sua identidade ou o seu direito à identidade. Muitas vezes exige-se do indígena o que não se exige de si próprio, no que se refere ao uso de vestimentas tradicionais ou a preservação do modo de vida primitivo.
Não é correto pressupor que a colonização tenha acabado. Persiste o projeto colonial, inclusive o seu vínculo com o cristianismo e até mesmo a estratégia do genocídio.
Do ponto de vista indígena, Abya Yala é como se denomina o continente, em vez de América (em homenagem ao navegador e colonizador Américo Vespúcio). O indígena está em casa e, mais do que isso, há que ser respeitado na sua própria compreensão do que constitui avanço tecnológico. O indígena, como povo composto de várias etnias, também é em si mesmo diverso e se transforma. Há um lema que invoca o respeito: “Posso ser quem você é sem deixar de ser quem sou”.
No sétimo episódio, o doutor em Filosofia Sílvio Almeida apresenta as vantagens estruturais num sentido de que se as instituições funcionarem normalmente o resultado vai ser racista, pois o privilégio branco é um lugar socialmente construído e estruturalmente constituído para que as pessoas que ocupam esse lugar tenham vantagens em relação às demais. Não significa que todos os brancos estejam em posição de privilégio, nem que todos os negros estejam em posição de subalternidade. No entanto, há uma nítida noção de lugar e normalidade, por exemplo, no caso de um branco de olhos azuis em situação de rua: há mais comoção de brancos, considerando o estereótipo negro das pessoas em situação de rua.
A identidade não é escolha; diferentemente da identificação. Identidade tem conteúdos postos e impostos.
A luta antirracista tem que ser a luta para destruir a máquina de produção e reprodução do racismo. E os brancos têm papel fundamental nesse processo, inclusive entendendo que a reprodução do racismo se dá por meio das consequências políticas da precarização dos direitos sociais, como a uberização e a reforma da previdência, que acentuam a desigualdade. Há uma máquina de produção do desejo de ser branco, e a branquitude funciona a partir disso. O compromisso antirracista se mede inclusive pelo compromisso político de subverter o imaginário racista.
No oitavo episódio, a doutora em Serviço Social Ana Helena Ithamar fala da falsa ideia de neutralidade racial branca. Não existe essa neutralidade. Nas relações sociais do cotidiano há o privilégio de ser branco, desde o afeto e apreço recebidos. Há como que uma naturalização do privilégio branco, que vai desde o direito de ir e vir, ao direito de pertencer à narrativa hegemônica do belo, do inteligente, do correto. Pessoa fina e pessoa de classe são frases que se vinculam a isso.
É possível reverter essa narrativa? A Lei 10.639/2003 é uma tentativa de ir abrindo fissuras na narrativa hegemônica até desconstrui-la. A sociedade é constituída por várias histórias, não apenas a história hegemônica, “a história única”. É positivo confrontar a racialidade branca; alguns brancos podem até dar um passo atrás; outros, porém, não. A sociedade foi constituída de modo violento; é de se esperar que sua reconfiguração estrutural seja conflituosa, de certo modo até violenta.
No nono episódio, o doutor em Ciências Sociais Lourenço Cardoso aborda a classificação dos tipos de branquitude que ele nomeou: branquitude acrítica, radical, dos grupos supremacistas, e branquitude crítica, que se posiciona contra o racismo.
A branquitude acrítica se fortaleceu no ambiente virtual e, com a eleição de Donald Trump, ganhou projeção política; ensaia sair das sombras. Esse fenômeno tem sido notado no Brasil, a partir de radicais que apoiam Jair Bolsonaro.
Sobre a branquitude crítica, há a desaprovação pública do racismo, mas sua aprovação às escondidas. Hipocrisia. Há, ainda, comportamentos diferenciais cujo estudo requer outra tipologia, como o caso do professor que tratava de modo paternalista o aluno negro, supondo que o estaria ajudando, quando, na realidade, prejudicava a autoestima do aluno, que preferia ser tratado do mesmo modo que os alunos brancos.
Sobre a repercussão da morte de George Floyd e o silêncio sobre mortes ocorridas aqui, Lourenço Cardoso cita Guerreiro Ramos, que usava o termo “imitação” para explicar fenômenos como esse.
No décimo e último episódio, o mestre em Ciências Sociais e Humanas Vinicius Belizário fala sobre branquitude na mídia, tema de sua dissertação, que analisou 10 anos de publicações do blog do jornalista Reinaldo Azevedo sobre cotas raciais.
Vinicius Belizário comenta a branquitude dissimulada, camuflada em editoriais e linhas de roteiro. Em novelas, por exemplo, no uso de artistas brancos em “locais” majoritariamente ocupados por negros, não havendo o contraponto em usar artistas negros em locais ocupados por brancos.
Na mídia, o medo branco é majoritariamente consciente do seu papel formador de opinião e de agente da branquitude. Também há o medo branco inconsciente. Mas a branquitude dissimulada não se coloca entre a branquitude crítica e a acrítica; se constitui em reforço à branquitude acrítica. Trata-se de um refinamento da defesa da branquitude acrítica. A mídia precisa se conscientizar do seu papel transformador na luta antirracista.
E assim a branquitude vai sendo revelada, provocando a formação de uma Consciência Branca que seja consistentemente crítica, ademais afirmativa. Iniciativas no ramo empresarial como o curso de liderança do Magazine Luiza e a presença de negras e negros no telejornalismo da Rede Globo indicam uma tomada de consciência? O caso Matheus Pires, no que se refere à premiação por desempenho diante de ofensas racistas tem a ver com isso? Seria um tipo de meritocracia do oprimido?
Importante pensar, também, que ser branco tem mais a ver com mentalidade e menos com características físicas como a cor da pele. Menos branco se é quanto mais se rompe com o pacto narcísico, que, aliás, dialoga com a teoria do doutor em Sociologia Jessé Souza (4).
Compreendendo as classes sociais a partir dos capitais que estão ao seu alcance e que servirão como armas dos indivíduos separados por classes na competição social pelos recursos escassos, Jessé Souza entende a classe média como a classe do privilégio (p. 146), intermediária entre a elite do dinheiro, de quem é uma espécie de “capataz moderno” (daí cunhar o termo “pacto elitista”), e as classes populares a quem explora (p. 167). A classe média é a classe que tem acesso privilegiado ao conhecimento, ao capital cultural (p.148).
Tudo indica que não é obra do acaso que conflito de classes e conflito racial convergem numa bem estruturada rede de proteção do privilégio de ocupar os lugares mais qualificados, sob o argumento do mérito. Eis aí o crime perfeito: redime os suspeitos, responsabiliza as vítimas e silencia as testemunhas.
O racismo classifica inclusive os grupos étnicos europeus. Nesse sentido, um inglês tem uma classificação superior à de um português, por exemplo. Isso indica que há o periférico dentro do hegemônico, e que os conflitos iniciais da imigração foram superados com inclusão, formando um pacto narcísico e elitista na sociedade brasileira.
Enfim, é razoável afirmar que o empreendimento social à espera de realização passa pela efetiva inclusão de indígenas e negros? Seria esse o desafio secular: assegurar direitos sociais, cidadania de fato a toda essa parcela da população brasileira? E sobre os conflitos que emperram esse e outros objetivos fundamentais da República, mais que o financiamento dessa inclusão está a resistência à diversidade cultural e à decorrente partilha dos privilégios, incluído o protagonismo?
(1) DIANGELO, Robin. White Fragility: why it´s so hard for white people to talk about racism. Boston: Beacon Press, 2018.
(2) SHUCMAN, Lia V. (2014). Sim, nós somos racistas: estudo psicossocial da branquitude paulistana. Psicologia & Sociedade, 26(1), 83-94. Disponível em: < https://www.scielo.br/pdf/psoc/v26n1/10.pdf>. Acesso em: 10 out. 2020.
(3) SHUCMAN, Lia V. Entrevista concedida a José Tadeu Guimarães, Agência FAPESP. Publicada no EcoDebate – site de informações, artigos e notícias socioambientais, em 06 fev. 2015. Disponível em: <https://www.ecodebate.com.br/2015/02/06/racismo-e-branquitude-na-sociedade-brasileira-entrevista-com-lia-vainer-schucman/>. Acesso em: 10 out. 2020.
(4) SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
